Iguatemi

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quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Fui criada no tempo em que palmada educava


Foi aprovado dia 14 de dezembro, na Câmara dos Deputados, o projeto de lei que protege a criança e o adolescente de receber qualquer punição por castigos físicos, as famosas palmadas. 


Concordo plenamente com a lei no que diz respeito à proteção contra castigos físicos, nunca fui a favor. Mas, reconheço que nenhum pai ou mãe utiliza a palmada com o propósito de infligir dor ou sofrimento a seus filhos. 


Fui criada no tempo da palmatória, um pedaço de pau pesado, apropriado para dar “bolos” nas mãos das crianças. A palmatória era utilizada não só pelos pais, mas, também, pelos professores. A cada erro na tabuada, uma sequencia de bolos de palmatória, o que fazia com que fizéssemos de tudo para decorar a tabuada, para não sermos submetidos a tal castigo. A cada bolo no colega, a angústia da nossa vez fazia com que o suor escorresse e, muitas vezes, vi colegas menores fazer xixi nas calças por receio de errar. E tudo isso, acontecia na escola.


Em casa, existia até um lugar onde a palmatória era guardada. Lembro-me de ter escondido, certa vez a famosa palmatória, na tentativa de fugir do castigo, mas, não deu resultado, pois o cinturão foi utilizado imediatamente. E meu pai ainda dizia: “provou do meu pirão, tem que provar do meu cinturão”. Ou seja, enquanto estivéssemos sob sua guarda, devíamos obediência e uma vez a disciplina não sendo cumprida, o cinturão logo aparecia em cena. 


Apesar de ter vivenciado tais experiências, não guardo nenhum trauma dessa época. Creio, inclusive, que foi graças a atuação exigente de nossos pais que nenhum de nós trilhou caminhos que trouxesse problemas graves a si mesmo ou à sociedade.


Nunca gostei de bater em minhas filhas, mas reconheço que, em algumas situações foram necessárias algumas palmadas e castigos. E não era por falta de aviso, muitas vezes alertava: “eu não quero bater em vocês e vocês ficam pedindo: mamãe, bata em mim”.


Mudam os costumes, mudam as formas de educar. Observo que as crianças de hoje não estão dispostas a ouvir os argumentos dos pais e a obedecer, no primeiro momento, o que fez com que os pais se utilizassem da famosa contagem: 1, 2, 3... E o que se observa é que, a criança só obedece quando chega ao final da contagem. Muitos pais, até já aumentaram a numeração, porque ao chegar ao número final, à criança ainda não obedece. Em seguida, vêm à famosa palmada que põe um fim a situação. 


“Há espíritos que precisam de pão, há espíritos que precisam de pau”, diz um amigo orador espírita. 


Ainda vai levar um tempo para que apenas o diálogo resolva as situações da educação de nossos filhos. Após um, dois ou mais diálogos sobre a mesma situação, sem resultado, uma palmada costuma acalmar a indisciplina dos nossos filhos. Sem exagero, claro.


Veja na íntegra, entrevista do Dr. Içami Tiba a revista Plenitude.


“O GOVERNO DEU UMA PALMADA NOS PAIS”

O conselho federal de Psicologia citou Içami Tiba como o terceiro Psiquiatra mais admirado por psicólogos brasileiros. Sigmund Freud está em 1º lugar e Gustav Jung, em 2º. Referencia em todo o país e no exterior, Tiba criou a Teoria Integração Relacional e seus vídeos educativos atingiram mais de 13.000 cópias.
São mais de 3.400 palestras realizadas em empresas nacionais e multinacionais, escolas, associações, condomínios e instituições no Brasil e no exterior. O Psiquiatra, que já atendeu mais de 77 mil adolescentes e suas famílias desde 1968, tem 28 livros publicados, que já venderam mais de 4 milhões de exemplares. “Quem ama, educa”, por exemplo, foi campeão absoluto de vendas em 2003, segundo a revista “Veja”.
Içami Tiba falou a revista “Plenitude” sobre a “Lei da Palmada”, seus benefícios, malefícios e ajustes.
Plenitude – O projeto de lei que proíbe palmadas já foi aprovado pela comissão de Educação da câmara e segue para o senado. O que o Senhor acha da criação da lei?
TIBA – Acho um absurdo, mas outra vez se está atropelando etapas. No amor dadivoso você ama seu filho de paixão independente do que ele tenha feito. Existe o amor que ensina quando ele não sabe alguma coisa, mas existe uma terceira fase, que é o amor que exige que Ele cumpra o que aprendeu. Sou contra a palmada e a aplicação da lei dessa maneira.
Plenitude – A lei proíbe qualquer tipo de castigo físico e a proposta prevê mudança do novo Código Civil para eliminar o dispositivo que não pune pais, responsáveis e educadores pelas palmadas. Em sua opinião, isso pode alguma forma gerar malícia nos filhos no sentido de prejudicar os próprios pais ao se verem livres de uma punição?
TIBA – Isso vai gerar mais delinqüência. Qualquer governo que tenha uma lei mais forte do que a que os pais aplicam desorganiza a cabeça dos filhos. O governo ensinou uma forma errada de mostrar poder. Na minha visão, o governo deu uma palmada nos pais sem ensinar qual o caminho que eles poderiam ter tomado.
Plenitude – O artigo 395 do Código Civil diz que só poderá perder o pátrio poder o pai, a mãe ou o responsável que castigar crianças e adolescentes “imoderadamente”. Como Psiquiatra, de que maneira o Senhor acha que os filhos devem proceder?

TIBA – O que acho adequado que os filhos aprendem são as regras e que se não as cumprirem sofrerão conseqüências. Estas têm a ver com o erro praticado e não com a punição ou o castigo. Quando um filho picha um orelhão, o pai é que tem que pagar. O que um filho vai aprender se o pai é quem paga uma cesta básica, por exemplo? No início da obrigatoriedade do cinto de segurança, todo mundo achava besteira. Hoje, o povo tem consciência e usa o cinto não por ter medo das multas, mas porque quer se prevenir de acidentes.
Plenitude – Muitos pais já estão se sentindo afrontados com a nova lei. Como o Senhor pode orientar os responsáveis e educadores sobre a melhor forma de tratar seus filhos daqui para frente?
TIBA – Estamos falando de uma pequena porcentagem de pessoas que surram os filhos. Palmada e surra têm espíritos diferentes. A impressão que dá é que quem fez a lei a fez com um atropelo danado, sem pensar no aspecto educativo.
Plenitude - O Estatuto estabelece que os responsáveis poderão ser encaminhados a programa oficial de promoção da família, receber tratamento psicológico ou psiquiátrico, ter de freqüentar cursos em programa de orientação e ser obrigados a encaminhar seus filhos a tratamento psicológico. O Senhor conhece algum caso de família que tenha participado desse programa?
TIBA – Não. Hoje atendo adultos a quem os pais deixaram de estabelecer limites, deram-lhes de tudo e eles se tornaram tiranos. Não porque os pais os agrediam, mas por excesso de liberdade. Acostumaram-se a achar que tudo é para eles e podem fazer de tudo.
Plenitude – Como funciona a Teoria Integração Relacional?
TIBA – Funciona da seguinte maneira; “Eu tenho que ser o primeiro.” Se eu quero que meu filho tenha limite, eu preciso estabelecer um limite para mim. Eu não sou todo-poderoso.
Plenitude – Em principio, se entende a lei que proíbe agressão física, mas, verbalmente, o dano pode ser ainda pior. Em sua opinião, a lei também deveria abordar a agressão verbal?
TIBA – Palavras têm pouco alcance, porque, se palavras adiantassem, não existiriam tantos filhos ruins. O que os pais falam de bom para os filhos é muito maior.
Plenitude – Para pais que só conhecem as palmadas, não seria necessário que fossem orientados com novas alternativas de educar?

TIBA – O argumentado que esses pais usam é: ‘se foi bom para mim, não há de ser ruim para os meus filhos. Eu apanhei e estou aqui. ’ Ora, se em vez de ter apanhado tivesse sido instruído, e mais bem administrada à energia que ele tinha de aprontar coisas erradas, quem sabe não estaria bem melhor? Não podemos ficar repetindo um caminho que fizemos no passado quando já existem tantos recursos hoje.
Plenitude – O Senhor acha que a Lei vai ser cumprida ou vai ser mais uma a ficar só no papel?
TIBA – É mais uma lei para se ganhar dinheiro com extorsões. Na minha opinião, está atropelando etapas da educação.
Plenitude – A lei pode ser interpretada como invasão de privacidade, já que cada família tem uma cultura e uma ética próprias?
TIBA – Eu acho que estão invadindo, sim, porque o governo não dá nada de cobra tudo. A turma não reclama de pagar impostos se tem não reclama de pagar impostos se tem os benefícios que os mesmos poderiam trazer. É como pais egoístas que não dão nada para seus filhos e querem deles mais do que podem dar.
Plenitude – Na sua opinião, a conscientização e uma campanha maciça sobre educação sem violência não gerariam mais eficácia?
TIBA – Com certeza. Fazer uma campanha de educação maciça e espalhar por todos os meios de comunicação, além de fazer com que essa campanha ganhe corpo para que não haja mais violência dentro de casa. Depois que entendem o que é certo ou errado, os pais terão opção; de outra forma, fica tudo doloso. Se os pais forem motivados, vão se realizar cada vez que deixarem de bater nos filhos; se forem ordenados, vão se sentir frustrados cada vez que tiverem vontade de bater.
Plenitude – De que forma o Senhor orienta hoje os pais a recuperarem a autoridade com os filhos?

TIBA – Esse respeito vem daquilo que os pais fazem aos filhos. Estes gostam dos pais, mas não respeitam porque os pais se submetem aos desejos deles. Se os pais querem recuperar a autoridade, não adianta falar: ‘Me respeite porque sou seu pai. ’ É pior, é assumir que não há respeito. Comece a estabelecer ordens que seu filho tenha que cumprir. Assim, ele vai assumir sua posição de filho.
Plenitude – No Brasil, o que poderia ser feito como medida imediata contra a violência em família?
TIBA - Um projeto amplo de reeducação familiar. Isso que faço assim meio que Dom Quixote. Se o governo fizesse um trabalho durante uns três anos – digo três anos porque é um bom prazo -, as pessoas sentiriam o beneficio e ficariam motivadas. Se fizer só um mês não adianta, tem que pegar uma fase da vida deles.

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