Iguatemi

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sexta-feira, 6 de julho de 2012

Como me tornei espírita


Nasci num lar onde meus pais frequentavam a igreja católica e, por conseguinte, fomos educados segundo os preceitos católicos, com cumprimentos de todos os seus ritos: batismo, crisma, 1ª comunhão e casamento religioso. Estudei boa parte da infância no Colégio São Francisco, na cidade de Juazeiro do Norte, Ceará. Colégio mantido pela ordem franciscana.

Com esse histórico, impossível não direcionar parte da infância às questões religiosas. O meu lado religioso aflorou muito cedo e, logo estava fazendo parte da cruzadinha religiosa da igreja de São Miguel. Foi nesse período, por volta dos 12 anos que decidi ler a bíblia, e o que eu achava que seria algo confortador, se revelou um tormento, pois, não compreendia o Deus do Antigo Testamento que incitava seu povo a passar a fio de espada, aqueles que tivessem um Deus diferente, ou que esse Deus necessitasse que Moisés acalmasse a sua fúria e não destruísse a humanidade. Muitas outras questões fizeram com que buscasse o aconselhamento de um sacerdote, na época, Frei Sabino, diretor do colégio franciscano. Saí de sua sala pior do que entrei, pois, fui desaconselhada a não ler o Antigo Testamento por não ter idade para compreendê-lo. E pensei, por que Deus não é mais acessível? Segui o conselho do frei e direcionei para a leitura do Novo Testamento, o que me trouxe consolo, embora muitas questões ainda estivessem muito confusas. Uma delas encontra-se em S. Mateus, cap. XVII, vv. 10 a 13; - S. Marcos, cap. IX, vv. 11 a 13.

(Após a transfiguração.) Seus discípulos então o interrogam desta forma: “Por que dizem os escribas ser preciso que antes volte Elias?” - Jesus lhes respondeu: “É verdade que Elias há de vir e restabelecer todas as coisas: - mas, vos declaro que Elias já veio e eles não o conheceram e o trataram como lhes aprouve. É assim que farão sofrer o Filho do Homem.” - Então, seus discípulos compreenderam que fora de João Batista que ele falara.

Por muito tempo eu fiquei sem entender essa e outras passagens do evangelho, que foram aclaradas com o estudo de O Evangelho Segundo o Espiritismo, muitos anos depois.

Mas, a vida seguiu seu curso. Casei, tive filhos e cumpri todos os rituais religiosos realizados por meus pais. Parecia tudo resolvido, quando a vida resolveu dar um impulso no meu lado espiritual.

Residíamos na Rua Santa Rosa em Juazeiro do Norte, com família formada por três filhas pequenas: Gelma, Andréia e Alessandra. Nessa época, eu não trabalhava fora de casa. As crianças eram muito pequenas e exigiam a minha presença constante, além do que, não era muito comum à época, o trabalho fora do lar. Meu companheiro, Heliodório, iniciara um tipo de comércio conhecido como crediário de rua, onde as mercadorias eram levadas de porta em porta e, naquele sábado, ele estava fiscalizando o trabalho da equipe e ao final da tarde me falou de uma estranha experiência vivenciada em uma das residências visitadas.

O morador de uma das residências visitadas dissera que ele necessitava, urgentemente, fazer um trabalho espiritual, pois, identificara junto a ele uma entidade que desejava prejudica-lo. Tudo poderia ser feito com o pagamento de determinada quantia e a compra de alguns materiais: velas, charutos, cachaças e outras coisas mais. Achei aquilo tudo muito estranho e fiquei amedrontada, pois desconhecia por completo o assunto, mas, algo me dizia que aquilo não era certo. Foi então que lembrei de um casal que morava na mesma rua da nossa casa e que eu sabia frequentavam um centro espírita. Embora não concordasse com a prática, pensei: são pessoas de bem e não vão nos orientar a fazer nada de mal. Imediatamente, procurei o Sr. Assis e a Drª Eleomar, que me recebeu fraternalmente e gastaram parte da tarde me esclarecendo sobre essa questão e ao final da conversa me convidaram a visitar o centro espírita que eles frequentavam, naquela noite.

Cabe aqui uma pausa para esclarecer de que forma tomei conhecimento de que o casal frequentava um centro espírita. Meses antes, aconteceu um fato que chamou a atenção da cidade. Uma jovem que morava vizinho a minha residência e que era amiga da minha irmã, desenvolveu um quadro preocupante para a família. A jovem caiu num estado de total inconsciência e por semanas ficou sem se alimentar, e se comentava que um ser se apoderara dela e dizia que ia leva-la. Em momentos de crise, a jovem que era muito franzina, desafiava a força de vários homens que tentavam segurá-la, sem sucesso. Aquela situação chamou a atenção de populares e em pouco tempo a romaria à residência começou, entrando noite à dentro. Nenhum representante religioso que lá esteve, conseguiu dar conta da situação, o que terminou gerando o abandono, até que certa noite, o carro do Sr. Assis, na companhia da Doutora Eleomar e outras pessoas chegaram para uma visita. Todos foram dispensados, a casa foi fechada e, apenas o grupo e familiares permaneceram na residência. Após horas, o grupo foi embora e a notícia que correu é que a jovem estava bem e já estava se alimentando de um caldo. A partir dessa data, a jovem passou a frequentar o centro espírita, sempre levando uma garrafa com água e disse para minha irmã que tudo lhe ocorrera porque ela era médium. Na época, eu fiquei chocada e cheguei a comentar: “Pensei que essas pessoas fossem pessoas de bem”.

Não por acaso, recorri ao casal quando a situação confusa se apresentou. Após as orientações, saí decidida a visitar o centro espírita naquela noite. Não estava muito convencida, mas não queria ser deselegante depois de ter sido tão bem recebida. Quando meu companheiro chegou do trabalho, já estava com tudo organizado para ir à reunião. Minha irmã, Dolores, ficaria com as crianças.

A situação era nova para mim, jamais visitara um centro espírita e, certo sentimento de culpa me acompanhava. Desejava encontrar algo que me convencesse a não mais retornar, assim teria argumentos se fosse cobrada uma nova visita.

Era uma residência simples e fomos recebidos à entrada por pessoas muito gentis que nos conduziram até uma sala com algumas cadeiras, onde já se encontravam outras pessoas do nosso conhecimento. Uma música suave harmonizava o ambiente que era de total silêncio e desprovido de qualquer luxo. Apenas uma mesa e cerca de 40 cadeiras, compunham o salão.

Desde que adentrei o recinto, direcionei todos os meus sentidos para o que via e ouvia. Pouco tempo depois, um jovem aparentando 16 anos fez a leitura de uma página e uma prece simples e bela como jamais tinha ouvido, era uma prece espontânea, mas que dizia tudo o que eu gostaria de expressar a Deus. Em seguida, um senhor de nome Mozeli iniciou sua fala citando (S. JOÃO, cap. III, vv. 1 a 12.)

Ora, entre os fariseus, havia um homem chamado Nicodememos, senador dos judeus - que veio à noite ter com Jesus e lhe disse: "Mestre, sabemos que vieste da parte de Deus para nos instruir como um doutor, porquanto ninguém poderia fazer os milagres que fazes, se Deus não estivesse com ele."

Jesus lhe respondeu: "Em verdade, em verdade, digo-te: Ninguém pode ver o reino de Deus se não nascer de novo."

Disse-lhe Nicodemos: "Como pode nascer um homem já velho? Pode tornar a entrar no ventre de sua mãe, para nascer segunda vez?”

Retorquiu-lhe Jesus: "Em verdade, em verdade, digo-te: Se um homem não renasce da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus. - O que é nascido da carne e o que é nascido do Espírito é Espírito. - Não te admires de que eu te haja dito ser preciso que nasças de novo. - O Espírito sopra onde quer e ouves a sua voz, mas não sabes donde vem ele, nem para onde vai; o mesmo se dá com todo homem que é nascido do Espírito."

Respondeu-lhe Nicodemos: "Como pode isso fazer-se?" - Jesus lhe observou:
"Pois quê! és mestre em Israel e ignoras estas coisas? Digo-te em verdade, em verdade, que não dizemos senão o que sabemos e que não damos testemunho, senão do que temos visto. Entretanto, não aceitas o nosso testemunho. - Mas, se não me credes, quando vos falo das coisas da Terra, como me crereis, quando vos fale das coisas do céu?"

Acompanhei toda explanação e compreendi como nunca a explicação das citações, mas, insistia em não acreditar cegamente e dizia comigo mesmo: quando chegar à casa vou verificar em minha bíblia se as palavras proferidas por ele estão conforme o texto ou se ele modificou alguma coisa. Após a palestra fomos direcionados para a cabine de passe com certo receio. Tudo estava perfeito e eu pensava: é aqui que vou encontrar a coisa errada. Nada encontrei que justificasse a minha suspeita. 


Ao final da reunião fomos apresentados à equipe e me foi oferecido em empréstimo, o livro Paulo e Estevão, pelo orador da noite, Mozeli que a partir de então não se cansava de me indicar livros espíritas para leitura. É claro que ao chegar em casa, corri a consultar minha bíblia e claro, nada encontrei diferente da citação feita pelo orador. 

Na semana que se seguiu, quando meu companheiro chegou do trabalho, eu já me encontrava a postos para a reunião. O livro Paulo e Estevão já me situara na proposta da Doutrina Espírita e eu me senti em casa. 

Dessa forma, no ano de 1980, o espiritismo entrou na minha vida.

2 comentários:

  1. oii vc continua com tua conviquiçao espiritual

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  2. oii vc continua com tua conviquiçao espiritual

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